Vítima de um acidente que a deixou sem andar
por um tempo e com uma dívida de R$ 5 mil no banco, Ângela Maria, hoje com 56
anos, ouviu de uma mulher a promessa ilusoriamente fácil que resolveria todos
os seus problemas: 8 mil euros para atravessar o Oceano Atlântico e entregar
uma remessa de drogas em Lisboa, Portugal. "Eu sabia que era arriscado,
mas ela comprou as passagens e me convenceu de que era só tomar cuidado para
não levantar suspeita no aeroporto. Me deixei convencer, mas na época não
conseguia pensar em outra solução. Hoje eu não faria isso". O plano não
deu certo. Interceptada no Aeroporto Internacional de Belém, Ângela agora
cumpre pena de 13 anos e meio no Centro de Recuperação Feminino (CRF), em
Ananindeua, na Grande Belém.
Natural do Mato Grosso, mãe de duas
filhas e avó de duas meninas, Ângela deixou o Brasil para tentar a sorte como
cozinheira em um garimpo na fronteira brasileira com o Suriname. Foi lá que ela
sofreu o acidente que a deixou com fraturas na bacia e nos braços. Debilitada e
endividada, a ex-cozinheira cedeu ao aliciamento do tráfico de drogas e perdeu
sua liberdade, mas hoje vê no cárcere a possibilidade de um recomeço. Ela é uma
das 25 mulheres que integram a Cooperativa Social de Trabalho Arte Feminina
Empreendedora (Coostafe) - a primeira do Brasil formada dentro de uma
penitenciária - e deve ser diretamente beneficiada pela parceria firmada entre
a Junta Comercial do Estado do Pará (Jucepa) e a direção do CRF para estimular
entre as detentas o empreendedorismo além dos muros da prisão.
"O foco é na autoestima, na
valorização como pessoa e em como isso pode melhorar a relação delas com o
público, com os clientes da cooperativa, em um primeiro momento, e com os
clientes que elas vão ter que conquistar lá fora, quando forem empreender por
conta própria", explicou Carmem Botelho, diretora do CRF. "Ter a
coragem de empreender passa pela valorização da pessoa. Essas mulheres já são
empreendedoras, o que queremos agora é ampliar isso para que elas se sintam
capazes de empreender também lá fora, ter uma receita e não precisar voltar
para o mundo do crime", completa a presidente da Jucepa, Cilene Sabino.
Desde que foi criada em 2013, mais de
200 mulheres já passaram pela cooperativa. Segundo Carmem, até hoje nenhuma
voltou ao cárcere, mas a maioria enfrenta dificuldades para se estabelecer de
forma independente longe dos muros da prisão. A iniciativa da Jucepa quer
justamente fomentar nessas mulheres a confiança para que sigam empreendedoras
ao cumprirem suas penas e deixarem o presídio. E não só isso. Um dos objetivos
é também estimular entre as demais detentas a confiança em suas capacidades
empreendedoras para mudar definitivamente os rumos de suas vidas.
Na primeira lição, na manhã desta
sexta-feira (11), no CRF, cerca de 50 mulheres ouviram atentamente a palestra
ministrada pelo coach Paulo Cezar Esteves, uma aula sobre superação, tenacidade
e força de vontade. "Deixei claro para elas que o corpo delas está preso,
a mente não. Só elas podem tomar a decisão de mudar a realidade delas lá fora e
isso vai depender do que vão fazer hoje aqui dentro. Se vão aproveitar ou não
as oportunidades que estão se apresentando agora", afirmou Esteves, que
deve voltar ao CRF para ministrar novas palestras e acompanhar o progresso das
detentas.
Rosemary Dias, 56, que também cumpre pena
por tráfico de drogas e há três anos faz parte da cooperativa, gostou do que
ouviu. "Eu tirei como uma lição o que aconteceu comigo lá fora. Escolhi o
caminho que parecia mais fácil, mas hoje vejo que poderia ter ido por outro
lado. Pensei nisso enquanto ele (coach) falava", contou. Sem ter concluído
o Ensino Fundamental, Rosemary foi vendedora de lanche na rua e empregada
doméstica, mas alega que no Marajó, onde morava, as oportunidades de trabalho
eram poucas. "Hoje pelo menos eu tenho uma profissão. Quando sair daqui
espero ter o suficiente para comprar uma ou duas máquinas e começar um atelier.
Vai ser um recomeço."
