Santa Casa vai realizar primeira cirurgia de prótese de orelhas em mulheres escalpeladas




Regiane Gemaque da Silva tem 20 anos. Ela vive a expectativa de fazer um procedimento cirúrgico que vai lhe devolver a dignidade e, principalmente, a autoestima. Duas coisas que ela perdeu com apenas seis anos. O ano era 2003, Regiane viajava de Belém para o município de Muaná, ela acabara de deixar a casa dos tios em direção a casa dos seus pais. Foi quando ela sofreu um acidente no motor do barco e teve uma das orelhas e o couro cabeludo arrancados. Desde 2011 ela mudou-se para Belém na expectativa da primeira cirurgia para a implantação de próteses de orelha, realizada pela Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará.

Em outubro do ano passado, Regiane realizou a primeira etapa da cirurgia, quando colocou um enxerto que servirá de base para a prótese. Até o final de junho, ela e mais oito pacientes escalpeladas realizarão o sonho do implante da prótese. “Não vejo a hora de usar uma peruca bem bonita, poder colocar meu cabelo a trás, ter liberdade pra me sentir mais bonita. Estou esperando por isso há muito tempo e sou muito agradecida ao Governo do Estado por me proporcionar essa felicidade”, disse a jovem.

A cirurgia para o implante das primeiras próteses de orelha é um marco na história das mulheres escalpeladas atendidas na Santa Casa, hospital que é referência no tratamento no Pará. O Governo do Estado vai investir quase 100 mil reais nessa primeira etapa, que prevê a realização de mais seis cirurgias até o final de 2017. Com isso, serão 15 procedimentos este ano.

Os benefícios para as mulheres vão além dos fatores estéticos e psicológicos. Com a implantação das próteses, as mulheres evitam as otites e outras inflamações por conta do pavilhão auricular.

Prevenção - O Governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) faz um trabalho ostensivo de prevenção aos acidentes com barco de motor. Para isso, em 2008, foi criada a Comissão Estadual de Enfrentamento aos Acidentes de Motor com Escalpelamento, que organiza a distribuição de material preventivo e palestras informativas, envolvendo alunos, professores, pescadores, sindicatos e comunidade em geral.

Além dessas visitas, que ocorrem mensalmente em 46 municípios paraenses com histórico de escalpelamento, são feitas ações intensivas em seis campanhas pontuais: Carnaval, Semana Santa, férias escolares de julho, 28 de agosto (Dia Nacional de Combate ao Escalpelamento), Círio e final de ano. As regiões do Marajó e Tocantins são prioritárias, por registrar o maior número de acidentes.

Para este ano, está programada uma extensão na campanha de verão, com mais cinco municípios alcançados, além dos 10 nos quais acontecia até o ano passado. Prainha, Terra Santa, Oriximiná, Juruti e Monte Alegre completam a relação de 15 municípios que serão visitados em ações efetivas de prevenção e conscientização durante o mês de julho. Esses cinco municípios puderam ser alcançados com a extensão da rede de parceiros neste ano, como as secretarias municipais de saúde e pastorais locais.

Em 2017, ainda não foi registrado nenhum acidente com escalpelamento. Por isso, a Sespa comemora as estatísticas positivas. “Em 2015, tivemos 10 casos de escalpelamento e em 2016, conseguimos baixar para seis. Demos uma grande virada. Avaliamos que essa redução já foi reflexo da nossa insistência em estar no interior, da nossa preocupação em conversar com as pessoas, em informar e transformar”, destacou Socorro Silva, coordenadora estadual de mobilização social da Sespa.

Espaço Acolher - Dentro da rede de prevenção e cuidados às mulheres vítimas de escalpelamento, a Santa Casa criou o Espaço Acolher, no bairro do Umarizal, em 2009. O principal objetivo do ambiente é o acolhimento dessas vítimas que necessitam de tratamento prolongado. Antes da construção do local, elas permaneciam na Santa Casa, com risco de infecção hospitalar, e o espaço foi construído para resolver isso.

A equipe mantém a rotina de atendimento médico e social às pacientes mesmo sem hóspedes no momento, por conta da ausência de acidentes registrados neste ano. Durante o dia todo, uma equipe composta por psicólogas, assistentes sociais, professoras, pedagogas e técnicas de enfermagem estão de prontidão para consultas e atendimento.

O Espaço Acolher também atende a mães em amamentação exclusiva que moram no interior e estão com seus bebês na Santa Casa e outros pacientes que precisam ficar em Belém.

A assistente social e gerente do Espaço Acolher, Maria Luzia de Matos, também comemora a tão esperada realização das cirurgias para a implantação das próteses. “Os direitos dessas mulheres precisam ser garantidos e a prótese é mais um item de necessidade para elas. Existem muitos outros, que estamos trabalhando intensamente, junto a outros órgãos e formas de políticas públicas, para que elas possam ser atendidas”, destacou a profissional.

Perto de receber a tão sonhada prótese, Regiane continua frequentando o Espaço Acolher para acompanhamento médico e reforço pedagógico. No final do ano, a jovem pretende fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de olho em uma universidade e as aulas diárias no espaço dão mais confiança. O ano de 2017, certamente, deve reservar muitas mudanças na vida da jovem.