O Pará pode estar entrando em um novo
momento da pandemia do novo coronavírus. Com os dados do gráfico diário
apontando menos casos confirmados e óbitos nas últimas semanas, é possível
observar uma tendência de queda tanto na quantidade de pessoas doentes quanto
na de vítimas fatais da doença. A análise, de acordo com o titular da
Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), Alberto Beltrame, reforça a
importância de continuar seguindo as regras do distanciamento social - que
podem ser cruciais para a confirmação dessa tendência apontada pelo
monitoramento da Sespa.
"Boa parte desses números são um
retrato do passado, e não do presente. Entre os dias 19 e 20 de maio, houve 978
notificações de casos confirmados, mas apenas 78 são relativas às últimas 24
horas, e os 900 restantes referentes a exames realizados anteriormente",
explicou o secretário, em coletiva de imprensa realizada pela Agência Pará na
tarde desta quarta-feira (20). "Em relação ao número de óbitos, nesse
mesmo período, foram registrados 59, no entanto, mais uma vez, somente dois
desses ocorreram entre um dia e outro", reforçou.
Essa diferença é obtida quando são
comparados os gráficos que registram o acumulado de doentes e mortos, desde o
primeiro caso confirmado no Estado, ainda em março, com os gráficos diários.
Ambos estão disponíveis no site Transparência Covid-19 (covid-19.pa.gov.br),
atualizado diariamente, e a partir de hoje essa contagem passa a fazer parte
dos boletins diários divulgados pela Sespa nas redes sociais. Um dos motivos
para a diferença entre os números de um gráfico para outro é o atraso por parte
das Secretarias de Saúde de cada município na informação ao Estado do
quantitativo de pacientes positivados. Toda unidade de saúde, pública ou
privada, tem obrigação legal de notificar casos de coronavírus, sob pena de
responder por crime sanitário.
Pico - Beltrame fez uma comparação entre
os dois gráficos e apontou que, no dia 20 de abril, data tida como o pico da
pandemia no Pará, houve o maior número de casos confirmados em um único dia, ao
passo que no dia 5 de maio foi observado o maior número de mortes em um único
dia - intervalo de cerca de duas semanas, tempo recomendado para o isolamento a
partir da confirmação da doença.
"É uma lógica linear: quando o
paciente, infelizmente, evolui para o quadro grave, isso ocorre entre o sétimo
e oitavo dia, indo a óbito a partir do décimo dia", detalhou.
"Tivemos duas mortes nas últimas 24 horas. Mas esses são gráficos de
tendência e podem mudar. Se relaxarmos e formos todos para a rua, o número pode
crescer, e em 14 dias o resultado será de mais casos graves e mais
mortes", orientou.
Beltrame destacou a transparência do
Estado em relação ao quantitativo de casos e a metodologia adotada desde o
início dos registros. "No início da pandemia, as confirmações eram feitas
exclusivamente por meio da realização do exame molecular RT-PCR, executado
primeiro pelo Instituto Evandro Chagas (IEC), e depois exclusivamente pelo
Laboratório Central do Estado (Lacen), de onde quer que viessem as amostras.
Tudo era absolutamente fiel à realidade, até porque a maioria dos casos estava
na Região Metropolitana de Belém e na capital. Não há de se falar em
subnotificação entre o final de março e abril", ressalvou.
Depois, segundo o secretário,
"começamos a trabalhar com o exame rápido, que informa se o paciente esteve
infectado por meio da detecção de anticorpos, algo que só é identificável a
partir do décimo, 12º, 14º dia de contaminação. Recebemos 150 mil unidades
desse teste e encaminhamos 122 mil para as prefeituras de todo o Estado. A
partir daí começa, pequeno e depois aumenta, o acúmulo criado pelo retardo
entre a data de realização desse teste e a data de informação, por parte das
prefeituras, do resultado para o sistema de monitoramento da Sespa, que gera os
boletins diários", detalhou.
O secretário cita os próprios 900
registros de casos entre os dias 19 e 20 de maio como um exemplo desse cenário.
"Todo esse quantitativo se refere a exames rápidos realizados em outras
datas e cujos resultados só foram computados nas últimas 24 horas. Das 162
mortes nesse mesmo período, onze ocorreram nesse intervalo, e as demais em dias
anteriores", justificou.
Com a descentralização da realização dos
testes, atualmente 53% são feitos pela metodologia PCR, 39% são de testes
rápidos e cerca de 9% dos diagnósticos já são feitos a partir do vínculo
epidemiológico - sintomas vinculados à doença mais tomografia do pulmão com
padrão radiológico conhecido como "vidro fosco". "Isso precisa
ser compreendido para que não se crie um alarme na população ou intranquilidade.
Seguiremos na trilha da transparência, separando o que é do dia e o que é
passado, para que não se crie uma falsa impressão de aumento de mortes por
dia", analisou.
Cuidados - A boa notícia não deve ser
entendida como estímulo para que a população retome à rotina e promova qualquer
tipo de aglomeração - ao contrário. A confirmação da tendência de queda depende
principalmente do respeito às regras de distanciamento social daqui em diante.
"Os dados hoje têm a ver com grande esforço feito pela sociedade de ficar
em casa, praticar o isolamento. Seguimos com uma mensagem muito clara: a melhor
forma de evitar uma segunda onda de contaminação é ficando em casa",
alertou Beltrame.
Essa recomendação tem a ver com a
percepção, também a partir dos dados do sistema de monitoramento da Sespa, que
a Covid-19 começa a se deslocar rumo ao interior do Estado. No momento, as
cidades de Altamira, Redenção, Soure e Parauapebas são os focos de preocupação
e devem receber novos hospitais de campanha, com 60 leitos cada. Belém também
ganhará um novo hospital de campanha, com 220 leitos, mas com perfil
diferenciado: devolver, gradativamente, o Hospital Regional Abelardo Santos
(HRAS), hoje pronto-socorro para pacientes com sintomas da Covid-19, às suas
especialidades originais.
Retorno e tratamento - Um inquérito
epidemiológico a ser feito pelo próprio Estado deve nortear as discussões sobre
retomada da rotina em todo o Estado, mas não há datas para isso. Embora o
Ministério da Saúde tenha divulgado novo protocolo para prescrição da cloroquina
em pacientes com o novo coronavírus, Alberto Beltrame relembrou que o Pará
segue protocolo prévio para administração, que não será modificado. E reforçou
que toda e qualquer tipo de recomendação médica feita a partir de receituário
deve incluir informações obrigatórias sobre os riscos do uso do medicamento por
parte do profissional de saúde, bem como assinatura de termo de
responsabilidade por parte do paciente ou de seu procurador.
"O Ministério da Saúde fez todas as
ressalvas necessárias: não existem estudos ainda concluídos, as evidências
científicas são discutíveis e, principalmente, fez os alertas para o uso
associado a outros medicamentos. Tem gente que não pode ou não deve usar, e
mais um ponto importante, que nos tranquiliza, é de que nenhum tratamento será
feito por automedicação", confirmou o titular da Sespa.

