Carros de funerárias chegavam em
intervalos curtos de tempo nas portas dos cemitérios públicos da capital e
caixões eram enfileirados, em número quatro vezes maior que o normal, aguardando
uma vaga. Este foi o cenário vivido, diariamente, pelos profissionais que
atuaram nos cemitérios públicos, no pico das consequências fatais da pandemia
do novo Coronavírus. As equipes fizeram esforço sobre-humano para atender ao
aumento inesperado da demanda por sepultamentos.
No peso da pá, a cada abertura de novas
covas, os coveiros carregavam mais do que a missão do ofício, era preciso ter
forças para dar conta do espantoso excesso de trabalho que representava a perda
de inúmeras vidas vítimas da Covid-19. O coveiro Manoel João Santos, 48, atua
há 14 anos no Cemitério São Jorge, na Marambaia. Ele relata que enfrentou dias
de muito trabalho, para quem abria de uma a duas covas por dia, antes da
pandemia. “Teve dia que fizemos 17 sepultamentos e o maior número era de casos
suspeitos e confirmados da Covid-19. A gente não tinha tempo de pensar ou se
emocionar, durante o trabalho, nosso papel era dar conta de todas as demandas,
lidando com mortes de pessoas conhecidas e desconhecidas, e largando o serviço
mais de sete horas da noite, exaustos”, relembra o coveiro.
A administradora do cemitério São Jorge,
Aline Pinto, afirma que, no auge de maior número de mortes, em abril, foram 148
enterros e, até o dia 17 de maio, foram 126. Antes, o número mensal não chegava
a 50. “Éramos uma equipe de nove pessoas para dar conta de tudo. Tivemos que
fazer coisas que não eram nossas funções. Eu precisei fazer, pela primeira vez,
a abertura de processos de sepultamentos para ajudar no atendimento de tantas
famílias. O mais triste era ver essas famílias não poderem nem velar seus
mortos”, explica a administradora.
No cemitério Santa Izabel, no Guamá, a
rotina foi um pouco mais agitada. O ponto alto de registros de morte, entre
abril e o dia 17 de maio, atingiu 460 sepultamentos. O dia com mais
sepultamentos, bateu a marca de 28. Antes, a média diária era cinco sepultamentos.
“Em meados de março começou esse aumento de demanda e tivemos que estender
nosso horário de funcionamento e abrir o cemitério uma hora mais cedo. Nossa
equipe era de 16 pessoas, ficou reduzida a 12, devido ao afastamento dos
funcionários do grupo de risco. Mas buscamos com muita garra atender tudo”,
avalia o administrador do Santa Izabel, José Roberto Ribeiro.
No segundo cemitério a receber o maior
números de mortos, o Parque Tapanã, foram 385 corpos sepultados entre os dias 1
e 29 de abril. Do dia 30 em diante, os sepultamentos no local foram suspensos e
passaram a ser direcionados para o cemitério particular Parque Nazaré, do qual
a Prefeitura de Belém adquiriu mil novas sepulturas, sendo que 312 foram todas
utilizadas, em 20 dias.
O coveiro Jhonatan Lopes da Silva, 20
anos, foi um dos contratados, a pouco mais de um mês, para reforçar a equipe do
cemitério Nazaré. “O desafio tem sido muito grande por ser um trabalho de
risco, também. Tem que ter muita fé e força para superar essa experiência de
muito trabalho. Nunca imaginei que nossa cidade chegaria a esse nível de tantos
óbitos”, desabafa o coveiro.
“Enquanto os profissionais da saúde
estão na linha de frente, nós trabalhamos no fim da linha de todas essas
consequências da pandemia, quando as famílias enterram seus entes queridos. E,
diante de toda essa situação, a gente acaba aprendendo muito com sobre o valor
da vida”, acredita o agente de serviços urbanos que atua há 12 anos no
cemitério Tapanã, Edivaldo Oliveira, 58 anos.
Para o administrador do cemitério que,
em apenas um dia, chegou a registrar 32 sepultamentos, Luiz Paulo da Silva
Souza, 43, a rotina provocada pela pandemia é espantosa. “A demanda foi muito
grande, além do normal. Agora ela tem diminuído e esperamos que continue assim,
mas fomos surpreendidos com essa elevada quantidade de mortes e atuamos em um
campo de batalha para conseguir enterrar todos os corpos. Foi muito triste ver
as famílias desesperadas lidando com a perda repentina para um vírus”, defende
o administrador.
Plano emergencial de sepultamentos -
Para dar conta desse cenário, a Prefeitura de Belém montou um comitê composto
por profissionais de vários órgãos a fim de elaborar um plano de sepultamentos
de vítimas de Covid-19. O plano passou
por constante melhoramento para se adequar às necessidades diárias. Todos os
cemitérios públicos ativos de Belém, Icoaraci, Outeiro e Mosqueiro foram
habilitados a receber sepultamentos de casos suspeitos e confirmados de vítimas
da Covid-19.
Dentre as medidas previstas nele, está o
uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) especial pelos coveiros, quando
é sepultamento de vítima do vírus ou caso suspeito; a determinação do limite de
10 pessoas por sepultamento, com o devido distanciamento entre elas, que também
devem usar máscaras; além de repasse de orientações às funerárias para manuseio
e transporte de corpos; serviços de
melhorias em acesso, limpeza e iluminação de cemitérios; extensão de horário de
funcionamento de cemitérios; aquisição de novas sepulturas, remanejamento e
contratação de nova mão de obra para os cemitérios.
*Colaborou Grasiela Costa, Ascom Adic.

