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| Quadrinho Rasga Mortalha - Foto: Nailana Thiely - Ascom/UEPA |
O volume 1 da História em
Quadrinhos “Rasga Mortalha: Matinta Pereira” conta a história de uma família
que decide sair de férias para o interior e que acaba se vendo no meio de uma
aventura tipicamente amazônica. “Conheço muito mais homens ilustradores. Aqui
não conheço mulheres. Não sei se de repente elas se sentem acuadas por ser um
mercado mais masculino. Eu participei do Programa Ciências sem Fronteiras,
morei em Vancouver, no Canadá. Fiz um curso de quadrinhos e a maioria da turma
era mulher”, conta a designer.
A proposta da HQ de Marcele é
suprir a necessidade de mercado de histórias em quadrinhos nacionais, que
abordem a cultura popular. A criadora se inspirou no costume que ainda é visto
no interior do Estado, em que crianças, jovens, adultos e idosos se reúnem para
contar suas lendas.
A inspiração também veio de sua
própria história. Marcele recorda as visitas nas férias à casa da avó, que mora
em uma das cidades da Ilha Marajó. Lá ainda permanece forte a crença neste tipo
de história. A designer conta que até hoje, ela, a avó, a família e os vizinhos
acreditam na Matinta Pereira. Inclusive, um dos personagens da história é a
própria avó de Marcele, Terezinha, de 76 anos. A artista não se preocupou em
dar nome a todos os personagens, pois quer que os leitores se coloquem na
história.
“Fiz uma pesquisa na internet
para saber se as pessoas tinham interesse em histórias em quadrinhos com
lendas. Teve gente que disse que ninguém tinha medo do Saci, ou dos seres
daqui, porque todo mundo tem medo de zumbi, e eu pensei: ‘Como não ter medo da
Matinta Pereira?’. De todas as lendas, ela é a que mais me assusta. Estamos
acostumados com a cultura de fora que esquecemos a daqui. Perguntei no Facebook
se tinham interesse em conhecer as lendas brasileiras. Me surpreendeu o fato de
as pessoas quererem conhecê-las”, conta.
A história
Na HQ “Rasga Mortalha: Matinta
Pereira”, mãe, pai e quatro filhos curtem a companhia um do outro durante as
férias no interior do Pará. Para se divertirem à custa do irmão mais novo
chamado João, duas irmãs aproveitam o cair da noite para contar a lenda da
Matinta Pereira. Mas o irmão mais velho, totalmente descrente da existência de
uma velha com os cabelos caídos no rosto, poderes sobrenaturais capazes de
causar prejuízos à saúde das vítimas, e que bate na porta das pessoas e pede
tabaco, se aproxima da floresta e começa a xingar e desafiar a Matinta. Tudo
para provar aos irmãos que ela não existe.
Em cima da árvore, a Rasga
Mortalha, coruja de cor branca, observa toda a cena entre os quatro irmãos, que
entram na casa e se acomodam para dormir. Deitado, João não consegue pregar os
olhos, reflexo do medo da história da Matinta. Na madrugada, João sente
calafrios ao ouvir barulhos estranhos do lado de fora da casa. O som constante
se assemelha a um pano sendo rasgado. O barulho vem do bater das asas da Rasga
Mortalha. A ave voa próximo da casa.
Segundo a crendice popular na
Amazônia, quando a Rasga Mortalha produz esse som, é sinal que algum morador
por ali está perto de morrer. A partir daí começa o drama, suspense e terror na
vida da família que desejava apenas curtir as férias.
Todo o projeto de Marcele
baseou-se no próprio Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado “Rasga
Mortalha: projeto gráfico de uma história em quadrinhos de terror inspirado nas
lendas populares brasileiras”. O trabalho ganhou o primeiro lugar no Prêmio
Melhor TCC 2015 da Uepa. A premiação faz honras aos melhores trabalhos
produzidos na universidade.

